
Denis Barthel, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
Eisenherz Buchladen
A primeira livraria gay da Alemanha, em Schöneberg desde 1978. Ainda independente.
Por que vale a pena conhecer
- Abriu em 12 de novembro de 1978 como 'Prinz Eisenherz', na Bülowstraße 17 — primeira livraria gay da Alemanha, nascida dos movimentos de libertação homossexual e da esquerda estudantil de Berlim Ocidental
- Mudou de endereço três vezes em cinco décadas — Bülowstraße, Bleibtreustraße (Charlottenburg), Lietzenburger Straße — e está na Motzstraße 23, no Nollendorfkiez, desde novembro de 2013
- Tirou o 'Prinz' do nome ao ampliar as prateleiras para literatura lésbica e trans, não por rebranding
- Ajudou a criar a revista Siegessäule, o Teddy Award e o serviço de acolhimento do Mann-O-Meter — uma livraria que pariu metade da infraestrutura queer de Berlim
Toda lista de Berlim arquiva esse endereço como "histórico", fotografa a fachada e segue em frente. Leitura errada. A Eisenherz é a primeira livraria gay da Alemanha, abriu em 1978 e continua vendendo livros hoje — a história é o argumento inicial, não o assunto inteiro.
Fundada em 12 de novembro de 1978 como "Prinz Eisenherz", na Bülowstraße 17, a livraria saiu dos movimentos de libertação homossexual e da esquerda estudantil de Berlim Ocidental — quatro homens, Peter Hedenström, Lothar Lang, Michael Keim e Christian von Maltzahn, abrindo uma livraria porque não havia outro lugar para encontrar aqueles livros. Um ano depois entrou Bruno Gmünder, e em menos de uma década a loja já era menos uma vitrine do que uma central telefônica: ajudou a incubar a Siegessäule, até hoje a revista de programação queer de referência em Berlim, o Teddy Award (o prêmio de cinema queer da Berlinale) e o serviço de acolhimento do Mann-O-Meter. Uma livraria que gera um prêmio de cinema e uma linha de apoio não é peça de museu.
Três mudanças, uma continuidade
O endereço mudou mais que a missão. Bülowstraße até meados dos anos 1980, depois a Bleibtreustraße 52, perto da Savignyplatz, em Charlottenburg, quando o acervo chegou perto de 20 mil títulos; depois a Lietzenburger Straße 9a, de volta a Schöneberg, a partir de 2004, com o aluguel e a venda online apertando o setor. Desde novembro de 2013 fica na Motzstraße 23, no Nollendorfkiez — as mesmas poucas ruas que concentram a infraestrutura queer diurna de Berlim, a poucos minutos a pé da Nollendorfplatz.
Em algum ponto do caminho o nome perdeu o "Prinz". Não foi reposicionamento de marca: conforme as livrarias femininas de Berlim iam fechando nos anos 1990 e 2000, a Eisenherz ampliou as próprias prateleiras para cobrir o vácuo, passando a estocar literatura lésbica e trans que não tinha mais onde estar — e o nome mudou para acompanhar o que a loja já tinha virado.
A outra livraria que sobreviveu à mesma década
Londres teve sua própria versão dessa briga. A Gay's the Word abriu em janeiro de 1979 — três meses depois da Eisenherz — e foi alvo de uma batida da alfândega britânica em 1984, na "Operação Tiger", com acusações de conspiração derrubadas só depois de um fundo público de defesa. A Eisenherz não enfrentou exatamente essa briga, mas abriu numa Berlim Ocidental em que ser visível e comercialmente gay era um tipo próprio de exposição, e seguiu funcionando durante a mesma era de desconfiança estatal que levou o estoque de uma livraria a julgamento do outro lado do canal. Duas lojas, duas capitais, fundadas com menos de um ano de diferença, as duas ainda independentes, as duas ainda abertas depois de todas as matérias de aniversário que insistem em redescobri-las.
O que é hoje
Uma loja cultural queer de verdade, não uma prateleira temática: ficção, livros infantis, biografia, títulos acadêmicos e obras de autores que não ganham espaço nas mesas das grandes redes, além de uma pequena galeria com mostras mensais de fotografia e arte. Leituras, debates e sessões de cinema acontecem o ano inteiro, e a loja participa da Semana do Orgulho e do Festival Lésbico-Gay da cidade em vez de só vender camiseta temática. Comemorou 40 anos em 2018 — quatro décadas no mesmo bairro em que começou, três endereços adiante.
Por que ir
Porque uma livraria que abriu antes de boa parte da clientela nascer, sobreviveu à pior década do varejo e ainda decide o que vai na vitrine é um termômetro melhor da saúde de uma cena do que qualquer clube que abre e fecha num ciclo de notícia. A Motzstraße fica a cinco minutos a pé do metrô da Nollendorfplatz — vale o desvio antes ou depois de qualquer outra coisa em Schöneberg, do mesmo jeito que a Gay's the Word vale o desvio em Bloomsbury: mesmo instinto, duas cidades, as duas de pé.
Fontes: Prinz Eisenherz Buchladen (official site), Wikipedia (de) — Buchladen Eisenherz, visitBerlin — Eisenherz Buchladen