
Photo by Fulviusbsas via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Casa da Frontaria Azulejada
Casa de comerciante de 1865 na Rua do Comércio, com a fachada trazida de navio.
Por que vale a pena conhecer
- Erguida em 1865 por Manoel Joaquim Ferreira Netto, comendador português e comerciante, como casa e armazém no mesmo prédio
- Cerca de sete mil azulejos em alto-relevo, importados de Portugal, cobrem a frente
- Planta em U com a abertura voltada para o porto, para a carga entrar direto nos armazéns
- Foi Hotel Guanabara dos anos 1940 aos 60, depois depósito de adubo, e é espaço cultural desde 2007
A maioria dos prédios históricos pede admiração. Este fica mais interessante quando você o lê como uma decisão de negócio.
A Casa da Frontaria Azulejada subiu na Rua do Comércio em 1865, construída por Manoel Joaquim Ferreira Netto — comendador português e comerciante numa cidade portuária que, naquele momento, estava ficando muito rica com café. Não foi feita para ostentar. Era casa e armazém na mesma estrutura, e a planta em U se abria para o porto, para a carga sair da água e entrar nos armazéns sem desvio. A arquitetura é neoclássica, no registro do Segundo Império, como se espera do período. A planta é logística pura.
E tem os azulejos. Uns sete mil, em alto-relevo, importados de Portugal e assentados em toda a frente — daí o nome, e daí o motivo de as pessoas ainda pararem na calçada para olhar para cima. O detalhe que vale saber é que provavelmente não foram ideia do comendador. A fachada foi azulejada depois da morte dele, pelo sócio Luiz Guimarães. Ou seja: aquilo pelo que o prédio é famoso é o floreio de um segundo dono no armazém de outro — uma origem bem santista, em que o porto fez o dinheiro e o enfeite chegou depois.
O que vem em seguida é a parte que impede isso de virar história de patrimônio bem-comportada. O prédio não deslizou de casa de comerciante a monumento protegido. Virou armazém de carga. Foi o Hotel Guanabara dos anos 1940 aos 60. Terminou guardando adubo — e foi o tombamento do IPHAN, em 1973, que barrou esse uso, porque a proteção federal era a única coisa entre sete mil azulejos portugueses e a amônia. Quando a prefeitura desapropriou o imóvel abandonado, em 1986, ele já precisava de resgate de verdade, e a restauração da fachada em 1992 envolveu tanto recuperar azulejos originais quanto reproduzir os que já não davam para salvar.
É uma aula involuntária sobre como uma cidade portuária trata o próprio tecido. Santos não preservou este prédio por amor. Preservou depois de décadas usando-o para o que pagasse, e só quando um tombamento federal obrigou.
Desde 2007 funciona como espaço cultural — exposições, eventos beneficentes, apresentações e, mais recentemente, feiras de economia criativa e noites com DJ num prédio que guardou adubo dentro da memória de gente viva. O Juicy Santos é o jeito prático de saber o que está rolando, porque a programação aqui é por evento, não uma agenda fixa em que dá para aparecer no escuro.
Duas ressalvas honestas antes de montar o programa. Primeira: esse modelo por evento significa que uma visita azarada encontra a porta fechada e os azulejos como experiência inteira — o que vale a caminhada, mas não é a mesma coisa que visitar um museu com horário. Confira antes. Segunda: o azulejo é o atrativo, o interior não. É uma fachada restaurada grudada num espaço de eventos em funcionamento, não um interior de época para visitar.
Vá pela frontaria, de manhã, quando o relevo aparece de verdade em vez de achatar. A Rua do Comércio fica a poucos passos do Teatro Clube da Eskyna, e os dois juntos sustentam o argumento que o Centro Histórico tenta emplacar há anos — que o bairro merece uma tarde inteira, e não ser só o trecho que se atravessa entre o porto e a praia.
Fontes: Wikipédia — Casa da Frontaria Azulejada, Juicy Santos, Turismo Santos (official), Memória Santista
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