
Photo via Vai Se Food (Ailin Aleixo)
Cuia
O café de Bel Coelho dentro de uma livraria no Copan, cozinhando a despensa brasileira.
Por que vale a pena conhecer
- Café-restaurante da chef Bel Coelho, aberto em 2021, dentro da Livraria Megafauna, no térreo do Edifício Copan
- Listado no Guia MICHELIN — incomum para uma casa onde se come entre estantes, e não em mesa formal
- Cozinha quase inteiramente com ingredientes brasileiros, boa parte vinda de produtores agroecológicos e orgânicos
- O nome vem da cuia em que boa parte do cardápio é servida — o formato é o conceito, não enfeite
- Fecha segunda, e domingo é só durante o dia; uma tarde de semana entre as estantes é a versão que as pessoas recomendam
A Cuia fica dentro de uma livraria, e essa é a primeira coisa a entender sobre ela — a que a maioria dos textos deixa no fim. Ela ocupa parte da Livraria Megafauna, no térreo do Edifício Copan, a curva de concreto de Niemeyer na Avenida Ipiranga. Você come entre as estantes, de frente para a cozinha aberta, ou na área externa do térreo do prédio. Não é gimmick nem pop-up — abriu em 2021 e está lá desde então —, mas ajuda a acertar a expectativa: não é uma sala de jantar silenciosa. Tem gente circulando e folheando livro ao lado da sua mesa. É essa a troca, e para quem gosta do lugar ela é o atrativo, não o custo.
A cozinha é de Bel Coelho, que antes de abrir aqui já tinha tocado o Sabuji, depois o Dui — o restaurante dos menus de Orixás — e o Clandestino, fechado em 2020. A Cuia funciona como uma destilação do que ela vinha defendendo em todos eles: ingrediente brasileiro tratado como despensa séria, não como cor regional. O Guia MICHELIN lista a casa, o que vale sublinhar, porque o guia não costuma listar balcão de café dentro de loja. O que ele descreve é uma comida de dia inteiro que vai de um tostado ou pão de queijo até pratos de composição — arroz de cogumelos com tucupi e cúrcuma, baião de dois com abóbora defumada e queijo coalho —, com a maior parte dos insumos vindo de produção agroecológica ou orgânica.
O nome é o formato. Cuia é a tigela, e boa parte do cardápio chega numa: uma base, algo cozido devagar ou cru por cima, um molho, alguma crocância. O texto da Ailin Aleixo no Vai Se Food, de pouco depois da abertura, cataloga o cardápio inicial em detalhe — beterraba assada com feta, castanha de baru e manjericão; salada fria de bifum com shiitake; bolo de iogurte com calda de pitanga — e o desenho da coisa se manteve, ainda que os pratos tenham girado. O café vem de torrefação nomeada, não de blend genérico, e a carta de bebidas vai de kombucha e suco a vinho em taça, sem programa de bar completo. Os preços daquele texto de 2021 estão cinco anos defasados e não servem para planejar: vá esperando conta de café-restaurante do centro de São Paulo, não de cafeteria de livraria.
Duas ressalvas honestas. A primeira é horário: as fontes que listam não batem entre si no horário de abertura, e a segunda Cuia, aberta depois em Pinheiros, ainda embaralha a busca. O que todas concordam é no padrão — fecha segunda, abre até mais tarde sexta e sábado, domingo só de dia. Confira o dia em que você for, em vez de confiar num número lido em algum lugar, esta página inclusive. A segunda é o prédio: a rua interna do Copan não tem sinalização de galeria comercial, e a Cuia fica dentro de outro negócio, sem fachada própria para a rua, então achar na primeira vez pede mapa aberto e alguma disposição para rodar. É o mesmo atrito que vale para o Fel, o balcão de coquetelaria poucas portas adiante — e é por isso que os dois funcionam bem como uma noite só: ambos recompensam quem já sabe onde está indo, e ambos ficam mais fáceis na segunda vez.
O que faz valer o trabalho é que a Cuia faz algo genuinamente raro nessa faixa de preço. Cozinhar quase só com ingrediente brasileiro é fácil de alegar e caro de fazer de verdade, porque significa comprar de pequeno produtor em vez de um distribuidor só. Que o resultado seja um almoço que você toma entre estantes, num dia de semana, sem reservar com um mês de antecedência, é o ponto inteiro do lugar.
Fontes: Guia MICHELIN — Cuia, Vai Se Food (Ailin Aleixo), CNN Brasil Viagem & Gastronomia
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